Enock Cavalcanti, de Cuiabá

Todos os chamados grandes jornais brasileiros garantem que editam “edições nacionais”. Ou seja, estariam publicando veículos que cobririam e espelhariam, em suas páginas, todo o Brasil.

A pretensão dos jornalões tipo Folha, O Globo, Estadão é grande, mas os produtos que nos caem nas mãos todos os dias desmentem a empáfia desses diretores de jornais, desses editores que acreditam que o Brasil é assim tão simples que possa ser tão facilmente formatado em suas páginas. Morando em Cuiabá, Mato Grosso, já há 10 anos, depois de uma vida inteira passada no Rio de Janeiro, Brasil (trabalhei com o Dines num tempo de vacas magras em que ele fazia pequenos comentários gravados para o “jornal nacional” da Rádio Capital, todo final de tarde!), percebendo o país e a minha cidade, entre outras formas, pelas páginas dos jornalões, vejo que não há cabeça iluminada dentro do jornalismo brasileiro que nos faça fugir dessa centralização em torno do “eixo” Rio-São Paulo-Brasília. Brasília até nem tanto, porque o eixo gira mesmo em torno das grandes capitais que sediam as redes nacionais de TV. (Quem é que, no final das contas, acompanha o extremado esforço que Ricardo Noblat faz em Brasília para firmar o Correio Braziliense e seu jornalismo investigativo?!)

Se a Rede Globo existe para tentar domesticar o grande público videota, os jornalões brasileiros existem para calar e suprimir a opinião nacional que teima em regurgitar nos grotões do Amazonas, do Nordeste, do Tocantins, do Mato Grosso, do Rio Grande do Sul.

Eu imagino e sonho e idealizo um jornalismo brasileiro tão bem organizado e democrático que seja capaz de contribuir para a integração cultural e a conscientização política, social e humana do povo brasileiro, nas mais diferentes regiões do país.<> Isso, no entanto, não acontece. Ao invés de expandirem e multiplicarem suas sucursais e seus correspondentes e seus frilas e seus opinadores e suas fontes pelo país afora, driblando a concentração da informação que se opera a partir desses grandes centros, Rio e São Paulo, que não concentram à toa, concentram porque são, antes de qualquer coisa, grandes centros econômicos, os jornalões se distanciam cada vez mais do vasto interior do Brasil. (De vez em quanto, uma materinha aqui, outra ali, para descobrir a última pista do chupa-cabra.)

Acaba que os ditos jornais nacionais são feitos de costas para a nacionalidade, de costas para o Brasil. Na era da globalização, para os jornalões, parece mais interessante instalar correspondentes em Nova York, Londres, Paris, do que em Palmas, Manaus, Cuiabá, Porto Alegre, Belém… e tecer o fio da notícia de tal forma que o público dessas regiões tenha que curtir os acontecimentos das grandes capitais sem condição de conhecer e refletir a sua própria realidade, referenciando-a com a realidade dos grandes centros.

Sim, eu sempre reflito quando entro numa banca de jornal, tudo isso acontece por causa de um insumo fundamental chamado capital. Pressionados pelos altos custos de produção, os jornalões se entrincheiram nos seus grandes centros, enquanto a sorte das periferias culturais fica entregue nas mãos da chamada imprensa regional. Só que a imprensa regional, mais do que os jornalões, é limitada por seus parcos recursos de produção, se atrela muito mais facilmente aos poderosos de plantão e o resultado é que, na maioria dos casos, temos boletins e não, como seria fundamental, jornais de militância investigativa. (Há as exceções, é claro, há as exceções!) Deixo as reflexões mais específicas sobre a imprensa em Cuiabá e Mato Grosso para outra ocasião. Todavia, gostaria de encerrar com uma aparente sacada que tive outro dia, enquanto fazia meu footing diário pelas bancas de jornais da bucólica Praça Alencastro, no centro de minha cidade: a atuação de correspondentes e sucursais dos jornalões em centros menores como esta capital do Mato Grosso contribuiria para questionar o atrelamento da imprensa regional aos poderosos de plantão, impulsionando essa mesma imprensa regional rumo a um maior compromisso com seus leitores.

Estão todos convidados a discutir este assunto.

* Publicado originalmente no site Observatório da Imprensa, em 2009