Por Wilson Marini*

Folha, Estado, JB e Globo são jornais de expressão nacional, mas a geografia de sua circulação é outra. O Estado, conhecido em todo território brasileiro, é um jornal da região de São Paulo (Capital e Interior). Pode-se dizer que é um jornal nacional ou regional? Nem uma coisa , nem outra.

Claro, é possível encontrar O Globo fora do Rio, nas capitais e principais cidades do país, e até mesmo em New York. E o mesmo não acontece com jornais pequenos e médios. Não dá para comprar no Leblon ou Ipanema a maioria dos jornais brasileiros, mesmo aqueles líderes de circulação em suas áreas. Mas isso é insuficiente para resolver o problema da distinção entre jornalões como O Globo e o restante da imprensa.

O Globo, mesmo circulando em Brasília, Belo Horizonte, etc. continua sendo um jornal regional. Um jornal para cariocas. Assim como no Rio Grande do Sul, onde reina o Zero Hora, ou em Santo André, com o Diário do Grande ABC. O que os diferencia, portanto, é o prestígio. Uns são conhecidos nacionalmente e o que publicam repercute até no exterior. Outros têm o espectro limitado à sua área de circulação.

Os jornais de Campinas podem ser comprados na Avenida Paulista, em Moema ou no Aeroporto de Cumbica. Nem por isso o que publicam ressoa nos grandes centros. Foi por isso que demorou a ser notado o dedo na ferida do PT tocado pelo Diário do Povo, de Campinas, na história contra Lula. Foi esse jornal que deu a primeira denúncia de Paulo de Tarso Venceslau. Os leitores de Campinas sabem que o Diário saiu à frente, mas fora da região onde circula, prevalece o mérito de quem correu atrás.

A Folha conseguiu dar para os leitores da Capital, no domingo 31 de agosto, a morte da princesa Diana. Lilian Wite Fibe fez elogio ao jornal, conforme publicou o Painel dos Leitores, exultando a surpresa do fato quente no domingo habitualmente reservado a pratos frios.

O que ela não sabia (bem como os leitores dos jornalões e a grande parte dos jornalistas do País) é que pipocaram jornais por todo o País com o “furo” jornalístico. Furo em suas respectivas praças. Deram a morte de Diana já no domingo o Jornal da Cidade (Bauru) a Tribuna Impressa (Araraquara), A Tribuna (Santos), o Jornal da Cidade (Jundiaí) e o ABC Domingo, edição semanal dos três jornais do Grupo Vale dos Sinos (RS).

A grande diferença é que nesses jornais a notícia circulou no conjunto de toda a edição. A Tribuna, nesse dia, teve uma tiragem de 75 mil exemplares, para toda a Baixada Santista. A Folha deu tão somente na Capital. Fora, a manchete foi “MEC quer liberalizar ensino superior”, e nem uma linha sobre Diana, nem mesmo menção ao acidente.

A lição de tudo isso é que algo de novo e positivo está acontecendo com o Jornalismo, fora do eixo Rio-São Paulo, historicamente a vanguarda das inovações na área. E com a transformação, o conceito de Jornalismo Regional está mais do que na hora de ser revisto. Se a Folha deu a morte de Diana somente para os leitores de uma região chamada cidade de São Paulo, e foi furada em Santos e Bauru pelos jornais locais, como se pode dizer que é um jornal nacional?

A discussão é também semântica. Existiria o Jornalismo Regional? Vamos pensar em outras situações. Não seria redundância dizer Jornalismo Investigativo? O jornalista não é, por natureza, um investigador dos fatos? É possível atribuir especializações segundo as áreas de cobertura e interesse específico, como Jornalismo Econômico, Esportivo e Científico. O termo Jornalismo Regional é insuficiente se forem colocados no mesmo saco O Globo, Correio Popular e a Gazeta de Piraporinha. A saída, então, se for necessária a distinção, é usar a mesma lógica que se adota para os grandes (Jornais de Prestígio Nacional), para aqueles cuja área de influência é regional. Teríamos então o bloco do Jornal de Prestígio Regional.

E é nesses jornais de expressão regional que estão ocorrendo as boas novidades do jornalismo brasileiro. Em silêncio, como o “furo” que deram no caso Diana, esses jornais (os citados e muitos outros) estão investindo pausada mas firmemente na qualidade das redações e por conseqüência no resultado final.

Só para citar um exemplo, a Folha da Região, de Araçatuba, cidade de 160 mil habitantes no interior de São Paulo, lança neste final de semana o seu novo projeto gráfico e editorial, resultado de investimentos tecnológicos e de recursos humanos ao longo de um ano de trabalho. Outros regionais renovaram-se ou estão em fase de mudança.

Quase sempre começam por adotar a impressão a cores, pois não querem ficar atrás dos concorrentes maiores das capitais. Em paralelo, vem a divisão em cadernos e adoção de nova linguagem escrita e visual. Somente isso não assegura nenhum avanço. Mas sempre há algum ganho de qualidade, não como mera decorrência dos novos processos, mas como atitude consciente de que esse é o único caminho da sobrevivência da mídia impressa com o surgimento da Internet. O mercado de trabalho dos jornalistas é ampliado, os salários sobem, a preocupação com a técnica e com a ética aumenta. Ganham os leitores.

Jornais que até há pouco eram feitos com meia dúzia de abnegados, hoje têm redações bem equipadas com 20, 30 e até 50 jornalistas. Gozam da preferência dos leitores de sua cidade. Profissionais talentosos começam a ser disputados, aqui e ali. Os empresários se conscientizaram, quase ao mesmo tempo, que a saída é a qualidade e que essa palavrinha mágica passa também pela Ética.

Muita coisa também está mudando nos jornais de prestígio regional e, assim como furo de Diana, os grandões não estão se dando conta. Estão mais preocupados com a guerra que travam entre si para bater os recordes de páginas e tiragem. Como disse John Naisbitt, o consultor de tendências americano, em seu Megatrends, o Sol torna-se maior antes de desaparecer.

(*) Wilson Marini, jornalista, ex-editor-chefe do Correio Popular e do Diário do Povo, de Campinas, é consultor para redações de jornais e editor do Fax Regional (telefone/fax: 014- 2347705), boletim com notícias dos jornais de prestígio regional. Publicado originalmente no site Observatório da Imprensa, em 2009